A gente cresce na relação com o outro.

A gente cresce na relação com o outro.

quinta-feira, março 31, 2011

Cognição Social

A neuropsicologia é dividida em duas áreas hierarquicamente organizadas: neurocognição (também denominada cognição básica) e cognição social.

Neurocognição: Aplica-se às funções cognitivas básicas (atenção, memória, funções executivas). Estuda cada uma dessas funções individualmente porque elas utilizam sistemas de processamento semi-independentes.

Já a Cognição Social: Aplica-se ao estudo da adequação do comportamento ao ambiente. Refere-se, portanto, à habilidade de identificação, manipulação e adequação do comportamento de acordo com informações socialmente relevantes detectadas e processadas em determinado contexto ambiental. Em poucas palavras, a cognição social modula o comportamento.

O saber acerca da cognição social foi sendo construída a partir de estudos com animais, destacando-se os experimentos relacionados à competição por comida, estratégias de proteção e respostas adaptativas ao meio.

Os comportamentos mais complexos foram sendo desenvolvidos na espécie humana a medida que o grau de exigência de resposta ao meio foi aumentando.

Comportamentos humanos de cooperação e altruísmo foram fatores cruciais para a convivência em grupo. (Adolphs, 2001; Emery e Clayton, 2009; apud Monteiro e Neto, 2010)

Alguns quadros clínicos caracterizam-se por uma maior disfunção social, por em certo déficit nisto que chamamos, cognição social. É o que observamos, por exemplo, em casos de esquizofrenia, autismo, transtorno bipolar, psicopatia, entre outros. É importante compreender os mecanismos envolvidos nessa "falha do funcionamento social", pois é a partir da compreensão desses déficits cognitivos que podemos pensar em estratégias terapêuticas que beneficiem o paciente em sua interação com o meio.

Algumas diferenças são traçadas entre neurocognição e cognição social em termos de dos estímulos utilizados em pesquisas, o tipo de resposta esperada do sujeito e a forma de avaliação deste. Porém, o que me parece de crucial importância nessa diferenciação, é saber que, numa avaliação de aspectos como memória, resposta executiva ou atenção, por exemplo, esperamos uma resposta precisa e mensurável (neurocognição); já nos estudos de cognição social, é possível apenas verificar diferenças entre os sujeitos, apreender aspectos de sua personalidade. Numa avaliação de desempenho da cognição social não há resposta certa ou errada, mas sim a resposta particular de cada sujeito num dado momento e circunstância. O comportamento social é multideterminado.

"A cognição social consiste em uma operação mental, que está na base do funcionamento social, envolvendo a capacidade humana de perceber a intenção e a disposição do outro em um determinado contexto. Isto inclui as habilidades nas áreas da percepção social, atribuição e empatia e reflete a influência do contexto social." (Penn et al, 1997; Couture et al, 2006; apud Monteiro e Neto, 2010)

Existem dois processos cuja interação é de fundamental importância para a cognição social, são estes:

- Sistema Reflexivo/Sistema de Processamento automático
Esse tipo de processamento não exige muito esforço; a avaliação é automática, estando fora do campo da consciência. É relativamente rápida e de difícil regulação e controle, não sendo modulada pela atenção. O processamento se dá de forma paralela e é esteriotipado, ou seja, envolve tarefas familiares e já praticadas. Muitas vezes envolve emoções, esses comportamentos ocorrem sem deliberação reflexiva.
- Sistema Refletivo/Sistema de Processsmanto controlado, voluntário
Este é um tipo de processamento intencional, voluntário ou envolve esforço, ocorrendo dentro do campo da consciência. É relativamente lento e acessível à regulação, demandando recursos atencionais. O processamento se dá em série, a informação é processada passo a passo e permite lidar com tarefas novas e difíceis. Esse processamento surge tardiamente na evolução e no desenvolvimento, muitas vezes envolvendo linguagem declarativa e baseando-se no raciocínio, no pensamento reflexivo, na análise semântica, sintese e abstração. Esse sistema é importante por sua capacidade de atribuir significados e interpretar informações novas e complexas.

Modelo Conceitual de Cognição Social:

Segundo Couture e colaboradores (2006), a cognição social apresenta 4 componentes:
1)Percepção Emocional: Capacidade de inferir informação emocional a parrir das expressões emocionais, das inflexões vocais e/ou da prosódia.
2)Percepção Social: Capacidade de extrair certas pistas do comportamento manifesto dentro de um determinado contexto social, além da capacidade de compreensão das regras e das convenções sociais.
3)Teoria da Mente: Capacidade de compreender que os demais possuem estados mentais diferentes dos nossos e de fazer inferências relativas aos conteúdos desses estados mentais.
4)Estilo de Atribuição: Tendência característica de explicar as causas dos acontecimentos na própria vida. Capacidade de dar significado para os acontecimentos da vida.

Esse modelo, o Modelo Conceitual de Cognição Social, tem sido utilizado para investigar o funcionamento relacionado à competência social, através de escalas de funcionamento e habilidades sociais, teste de reconhecimento de faces e provas sobre Teoria da Mente, assim como é usado também para investigar as estruturas envolvidas nesse funcionamento, através de neuroimagem.


BIBLIOGRAFIA:Diniz-Malloy LF, Fuentes D, Mattos P, Abreu N e col - Avaliação Neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed, 2010; Cap. 14 - Cognição Social.


Atendimento Psicológico - em Botafogo
Contato: jessicacalderon.psi@gmail.com
Jéssica Calderon - CRP: 05/39344

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Meus escritos...



Vida, Arte e Vazio.

O vazio é um convite a criação.
Assim como a vida e a arte também o são.
O espectador espera que o artista preencha os espaços vazios.
Mas ele não o faz.
O artista convida o espectador à reflexão.
Ele reproduz na tela o nada - dimensão do próprio existir.
Não cabe ao artista dizer quais são as cores e formas.
Mas sim, cabe ao espectador, escolher o que ver.

Jéssica Calderon.
21/03/2010



Atendimento Psicológico - em Botafogo
Contato: jessicacalderon.psi@gmail.com
Jéssica Calderon - CRP: 05/39344

terça-feira, fevereiro 01, 2011

NOVA VERSÃO - Psicoterapia de Grupo (Idosos e Mulheres)


(CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA MAIOR!)

PSICOTERAPIA DE GRUPO

Para Idosos
Público Alvo:
Pessoas a partir de 60 anos
Sessões semanais - 1 hora e meia de duração.
Local: Botafogo.

Para Mulheres
Público Alvo: Pessoas a partir de 18 anos.
Sessões semanais - 1 hora e meia de duração.
Local: Copacabana.

Objetivos:
Oferecer atendimento aqueles que buscam um espaço amoroso e seguro para o autoconhecimento.
Auxiliar na construção de recursos internos que ajudem a lidar com as próprias emoções.
Propiciar maior qualidade de vida.

Profissionais:
* Jéssica Calderon Paixão CRP: 05/39344
Psicóloga, formada pela UFRJ.
Especializanda - Psicogeriatria, IPUB/UFRJ

* Mary S. Fridman Markewitz CRP: 05/39351
Psicóloga, formada pela UFRJ.
Especializanda - Arteterapia e Psicologia Médica (HUPE/UERJ)

Informações/Inscrições:
Jéssica (8336-5220) ou Mary (9378-0761)
http://psicoterapia-grupo.blogspot.com/
PREÇO: 50,00 (por encontro)

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A Gestalt-terapia como abordagem terapêutica



Gestalt-terapia: Uma abordagem fenomenológica - humanista existencial

A Gestalt-terapia, por ser uma abordagem existencial*, acredita no potencial humano, crê que as pessoas podem encontrar seu caminho na vida e assumir sua responsabilidade por esta. A maturidade nada mais é do que a responsabilidade pela própria vida e é exatamente neste sentido que esta abordagem trabalha, ajudando as pessoas a tornarem-se mais maduras emocionalmente a partir de uma maior conscientização a respeito de si mesmas.

Um dos objetivos centrais nesta terapia é mostrar ao cliente um caminho de maior autonomia e independência, baseando-se no autosuporte, contando com seus recursos internos.

A influência do Humanismo* se faz presente pela crença no potencial humano de crescimento e auto-transformção. Segundo Frederick Perls*, fundador da Gestalt-terapia, o ser humano tende a repetir padrões esteriotipados. A terapia vem para romper as esteriotipias e abrir caminho para mil novas possibilidades do ser.

Essa abordagem NÃO trabalha para o ajustamento do sujeito à sociedade. Pelo contrário, quer promover sujeitos autênticos; e, para que isso seja possível, o terapeuta também deve ser uma pessoa autêntica. Nesse terreno não se pode falar em neutralidade por parte do terapeuta, pois este deve usar-se inteiramente a serviço do processo terapêutico do cliente, compartilhando com ele experiências, sensações e emoções que afloram nessa relação. Essa relação pessoa-a-pessoa é preconizada por sua base existencialista.

A Gestalt-terapia é também criada com influências da fenomenologia*, por isso fica com o que se mostra, o fenômeno, com o que parece óbvio (mas mesmo assim temos, muitas das vezes, dificuldade de enxergar. Dentre os fenômenos a serem observados é de particular importância estar atento à linguagem corporal do cliente, porque o não-verbal revela mais do que as palavras previamente pensadas. É uma abordagem de elementos da consciência. A conscientização é a tarefa principal do terapeuta, pois é isto que gerará espontaneamente a mudança.

Aqui propõe-se que as pessoas possam vivenciar plenamente seu "aqui-e-agora" e que possam se dar conta de como fazem para não estar pleno no momento presente. Para ajudar o cliente nesta tarefa o terapeuta faz perguntas do tipo: "o que?" e "como?", raramente pergunta "por que?".
Segundo esta teoria, perguntas do tipo: "O que está acontecendo neste momento?", "O que você está sentindo agora?", "Como é seu medo agora?", "De que maneira você se afasta das pessoas?", por ex., ajudam a trazer os sentimentos à tona no momento atual, produzindo experiências imediatas e não frias racionalizações. Não espera-se uma verbalização excessiva.

Valorizar o presente não é negar o passado ou o futuro. Se uma questão do passado continua demandando energia faz parte de uma "passado-presente". Se uma pré-ocupuação a respeito de algo futuro toma nossos pensamentos no momento atual, é porque é um "futuro-presente". Tudo isto é importante, é visto e não rechaçado. A técnica utilizada aqui é orientar aos pacientes que contem desse passado ou futuro no momento presente, como se estivessem vivenciando a situação naquele exato momento. Por exemplo: Ao invés de falar sobre um trauma infantil, o cliente pode ser incentivado a dramatizar essa situação no consultório. Espera-se que assim, com a ajuda do terapeuta e estando num ambiente seguro, ele possa dar novos significados e criar novas saídas pra essa história.

É uma abordagem não-interpretativa pela parte do terapeuta; cabe ao cliente criar seus próprios significados.

Na GT trabalha-se com o conceito de polaridades, dicotomias existentes dentro do eu. Por ex: anjinho X demônio; passivo X ativo; doador X usurpador, etc. O objetivo é ajudar às pessoas a reconhecerem e aceitarem seus pólos opostos, fortalecendo assim seu self.

O conceito de situações inacabadas diz respeito a sentimentos e sensações interrompidas, não vivenciadas plenamente pelo sujeito, que, por isto, roubam energia enquanto não atingem sua plena expressão. É preciso identificar as situações na história da pessoa que não estão plenamente encerradas e trabalhar para que um desfecho (real e/ou emocional) se dê. Isto ajuda a pessoa a viver de forma mais plena. Por ex: Uma mulher que carregue consigo uma mágoa em relação ao pai, mas precise cuidar dele neste momento, pode ser que não se dê conta de seu sentimento. Porém, enquanto não puder perceber, aceitar e integrar tal sentimento em sua relação com ele, talvez nunca consiga ser de fato uma boa cuidadora.


Mini-dicionário:

Existencialismo: É uma corrente filosófica e literária que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano. O existencialismo considera cada homem como um ser único que é mestre dos seus atos e do seu destino.

Fenomenologia: É, em sentido lato, uma escola filosófica fundada por Edmund Husserl. Num sentido mais estrito, é uma disciplina da filosofia que estuda os objectos e as estruturas da consciência purificada ou transcendental, i.e., da consciência cognitiva. Trata-se, portanto, de uma investigação sobre a consciência em geral, comum a todos os sujeitos cognitivos plenos, independentemente das características psicológicas de cada um.

Humanismo: Um conjunto de ideais e princípios que valorizam as ações humanas e valores morais (respeito, justiça, honra, amor, liberdade, solidariedade, etc).

Frederick Perls: Psicólogo e psicoterapeuta alemão, Frederick Fritz Perls nasceu em 1893 e faleceu em 1970. Estudou Medicina em Berlim depois da Primeira Guerra Mundial, tendo-se especializado em psicanálise. Depois da tomada de poder de Hitler, refugia-se na África do Sul onde fundou um Instituto de Psicanálise. Em 1946 emigra para os Estados Unidos da América, vindo a sofrer uma grande influência da corrente gestaltista. Com a sua mulher Laura Perls, desenvolve uma terapia a partir dos fundamentos do Gestaltismo. Em 1951 publica o livro Gestalt Therapy, mas as suas concepções passam despercebidas. É a partir de meados da década de 60 que a Gestalterapia passa a ter aceitação. As suas concepções e princípios de trabalho influenciaram fortemente as terapias então surgidas nos Estados Unidos da América.

*Texto escrito por Jéssica Calderon.

Atendimento Psicológico - em Botafogo
Contato: jessicacalderon.psi@gmail.com
Jéssica Calderon - CRP: 05/39344

terça-feira, dezembro 28, 2010

O tempo na velhice




Nossa relação com o tempo varia de acordo com a idade que temos. Quando somos jovens, contamos o tempo vivido até o agora. Quando velhos, a extensão do tempo se estreita e passamos a viver o tempo que ainda nos resta; pois a morte, que negamo-nos a ver ao longo da vida, se aproxima inevitavelmente. Na velhice o futuro fica limitado pela consciência de finitude.

Vivemos numa sociedade onde o futuro é supervalorizado, em detrimento do passado e do aqui-e-agora. Estamos constantemente nos preparando para o amanhã. Fazemos planos para carreira, investimos em cursos, economizamos para ter uma boa aposentadoria... como se o amanhã fosse eterno; acontece que não é!

O "ser velho" de hoje também é produto de nossa cultura, portanto, este sofre as pressões e influências culturais. O velho de hoje também aprendeu, ao longo da vida, a mirar seus olhos para o que ainda está por vir e, portanto, se angustia ao imaginar a morte que se anuncia. Mas, ao pensar no presente, depara-se com os lutos das perdas que já teve e, por isso, é comum que se refugie no passado e em suas recordações.

A temática do tempo, embora não de forma explícita, é abordada em alguns textos freudianos, como em "Além do princípio do prazer." (1920)

O tempo psicológico é diferente do tempo cronológico.

O tempo cronológico constitui-se na sequência passado-presente-futuro, mas, para nossa psique, esta ordem é subvertida. Para nosso psiquismo o tempo não é linear, é no presente que avaliamos o passado e, quando o rememoramos lhe damos novos significados. Além disso, é a partir das experiências do presente que fazemos planos para o porvir.

A passagem do tempo pode ser experienciada como algo aterrorizante, pois ataca o narcisismo do sujeito que envelhece, ou seja, ataca a imagem que este tem de seu Eu Ideal da juventude e que hoje não é mais o mesmo.

Terapia e envelhecimento - Qual a importância da psicoterapia?

Durante o processo terapêutico, o idoso pode trazer à tona suas reminescências e, no processo de rememoração, pode elaborar questões de sua vida. É importante que esse discurso seja acolhido pelo grupo onde o idoso se insere.

A repetição de histórias ajuda a sustentar a identidade do sujeito, uma vez que identidade e memória se entrecruzam.


*Texto escrito por Jéssica Calderon.


Atendimento Psicológico - em Botafogo
Contato: jessicacalderon.psi@gmail.com
Jéssica Calderon - CRP: 05/39344

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Psicoterapia de Grupo para mulheres e idosos - Divulgação de Trabalho!!

Se esses serviços te interessam, entre em contato.
Se conhece alguém que possa se interessar, por favor, divulgue!

Obrigada!
Jéssica e Mary.


(CLIQUE NA IMAGEM PARA MELHOR VISUALIZAÇÃO!)


terça-feira, dezembro 07, 2010

"Não sou mais como era antigamente." - CORPO e envelhecimento

Retrato Cecília Meireles
in Flor de Poemas

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por conta desta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"



O processo de envelhecimento é continuo e progressivo.
A cada dia nos tornamos mais velhos e não nos damos conta das pequenas mudanças cotidianas.
Isto a tal ponto de um dia, enfim, levarmos um grande susto ao percebermos como não somos mais como éramos antigamente.

Platão foi um filósofo que falava da dicotomia corpo e alma. Dizia ele que o corpo era a matéria, já a alma correspondia a algo imaterial, algo de divino no homem. No pensamento platônico há uma valorização da alma em detrimento do corpo que perece.

Freud quando teoriza sobre as instâncias psíquicas e fala da existência de um EU que constitui o sujeito, apesar de falar de um EU psíquico, portanto, subjetivo e imaterial, coloca-o encarnado no corpo, não sendo possível tratar o corpo como algo sem importância ou de menor valor.
Ele diz: "O Eu é um ser corpóreo, e não só um ser superficial, ele é também a projeção de uma superfície." (Freud, 1923, T.II, p.15)
A teoria psicanalítica não fala apenas da existência de uma interioridade do sujeito, ela afirma a dimensão corpórea deste, até porque a formação do Eu se articula com o corpo, a partir dos primeiros contatos do bebê com a mãe e, posteriormente, através de suas experiências com o próprio corpo.

A imagem que temos de nosso corpo não é uma imagem real, mas imaginária.

A imagem que temos de nosso corpo é criada a partir de nosso contato com o outro e com o mundo. É uma imagem criada a partir do investimento externo em nosso corpo. O bebê ao nascer não se diferencia em relação ao outro, só a posteriori seu Eu é contruído.

"A imagem do corpo, pelo contrário, é própria a cada sujeito e está ligada a sua história. É relacional, depende especialmente da história libidinal, se apresenta como síntese das experiências relacionais do sujeito desejante e pode ser considerada como sua encarnação simbólica. É eminentemente inconsciente; memória da vivência relacional sempre dinâmica, pois estrutura-se através da relação entre sujeitos e é nela que se inscrevem as experiências relacionais (valorizantes ou não, narcisisantes ou não), que não são da mera ordem da necessidade, mas fundamentalmente do desejo." (Goldfarb, 1998, p.46)

A literatura aponta que existem dois momentos na vida onde o sujeito passa por um estranhamento em relação ao próprio corpo. O primeiro é na adolescência e o segundo na velhice.

Nas palavras de Goldfarb: "... a adolescência, em que o corpo cresce meio desproporcionado, e o sistema endócrino traz muitas novidades, mas onde fundamentalmente há a promessa de um futuro pleno de realizações. Mas quando um idoso se olha no espelho, o que este lhe devolve é uma imagem ligada a uma deteriorioração, uma imagem com a qual não se identifica. Não há júbilo nem alegria, há apenas estranheza, e ele pensa: "esse não sou eu". Novamente uma discrepância entre a imagem inconsciente do corpo e a imagem que o espelho lhe devolve." (Goldfarb, p.51)

"A imagem da velhice parece sempre estar 'fora', do outro lado, e embora saibamos que 'aquela' é a nossa imagem, nos produz uma impressão de inquietante estranheza, o apavorante ligado ao familiar. Apavorante porque a imagem do espelho não corresponde mais à imagem da memória; a imagem do espelho antecipa ou confirma a velhice, enquanto a imagem da memória quer ser uma imagem idealizada." (ibidem, p. 53)

Como é difícil perceber (e aceitar) nosso próprio envelhecimento, acontece de pessoas às vezes levarem literalmente um susto ao se olharem no espelho e perceberem as marcas do tempo em seu corpo.
Para ilustrar (e finalizar), leia o texto abaixo:

De: Mariana Frenk-Wenstein (escritora mexicana), 1995.

“Um dia a senhora NTS se viu no espelho e se assustou. A mulher do espelho não era ela. Era outra mulher. Por um instante pensou que fosse uma brincadeira do espelho, porém descartou esta idéia e correu a se olhar no grande espelho da sala. Nada. A mesma senhora. Foi no banheiro, no corredor, nos pequenos espelhinhos que carregava na sua bolsa, e nada. Aquela mesma senhora desconhecida estava lá. Decidiu sentar e fechar os olhos. Sentia vontade de fugir para um lugar bem longe onde não pudesse se encontrar com aquela pessoa. Porém era mais prudente ficar por perto, não deixá-la sozinha. Observá-la. Parou para refletir: quem poderia ser essa senhora? Talvez a que morou antes de mim neste apartamento?. Talvez a que morará aqui quando eu sair? Ou quem sabe, a mulher que eu mesma seria se minha mãe se tivesse casado com seu primeiro namorado? Ou quem sabe, a mulher que eu mesma teria gostado de ser? Lancei uma rápida olhada no espelho e decidi que não. De jeito nenhum eu teria gostado de ser essa senhora. Depois de pensar muito tempo, a senhora NTS chegou à conclusão de que todos os espelhos da casa tinham enlouquecido, agiam como atacados por uma doença misteriosa. Tentei aceitar a situação, não me preocupar mais, e simplesmente parar de me olhar no espelho. A gente pode viver muito bem sem se olhar no espelho. Guardei os pequenos espelhos de bolsa para tempos melhores, e cobri com panos os maiores. Um belo dia, quando por força do hábito estava me penteando frente ao espelho do armário, o pano caiu, e ali estava a outra me olhando, aquela desconhecida. Desconhecida? parece-me que já não tanto assim. Contemplo-a durante longos minutos. Começo a achar que tem um certo ar de família. Talvez esta dama compreenda minha situação e por pura bondade tente se adaptar a mim, a minha imagem que por tanto tempo habitou meus espelhos. Desde então , olho-me ao espelho todos os dias, a toda hora. A outra, não tenho dúvidas, se parece cada vez mais comigo. Ou eu com ela?"




*Texto escrito por Jéssica Calderon.


BIBLIOGRAFIA:
- Freud, S. "O ego e o id" (1923)
- Goldfarb, D.C. "Corpo, tempo e envelhecimento" - São Paulo: Casa do Psicólogo (1998).


Atendimento Psicológico - em Botafogo
Contato: jessicacalderon.psi@gmail.com
Jéssica Calderon - CRP: 05/39344